36 anos de mim

Há 36 anos, hoje, eu vim para esse mundo. Não sei se amada, nem mesmo desejada, mas eu vinha mesmo assim — uma potência, uma força da natureza. Desde o nascimento, somos provas vivas das leis de causa e consequência, sem pedir, sem querer.

Nesse dia, eu vim ao mundo pela primeira vez. O nascimento é a maior prova da dualidade presente em todas as criações divinas. Como ensina o hermetismo, tudo tem seu par de opostos — a vida e a morte, o quente e o frio, a luz e a escuridão. Ao mesmo tempo que ganhei a dita maior bênção — o sopro da vida — já cheguei com um nome, um papel a desempenhar, com toda a carga da ancestralidade e as limitações das regras tácitas do ambiente e da sociedade em que fui inserida. Eu era a manifestação do princípio hermético: tudo o que é criado carrega em si a semente de sua dissolução, e em toda limitação há um impulso de libertação.

Sem livro de instruções nem nada — só vai e vive. A gente chama isso de privilégio, mas por vezes parece apenas uma piada de mau gosto.

36 anos hoje. A lembrança anual de que meus dias são finitos e que, inevitavelmente, chegarão ao fim. Sempre digo para meus amigos que se queixam do envelhecimento: só não envelhece quem morre, como se isso fosse a sorte grande.

Apesar da necessidade humana de marcar a passagem do tempo, eu não me sinto nada diferente — nada mudou. O tempo vai passando despercebido, exceto pela lembrança anual e pelos sustos que tomamos no espelho vez ou outra — um fio branco luminoso brilhando entre as madeixas, o rosto um pouco mais cansado.

Mas hoje, não. Eu ainda sou a mesma de ontem, eu ainda sou a mesma de 20 anos atrás.

O mais curioso de ser uma adulta de meia-idade é perceber que o passar dos anos não muda a nossa essência. Eu não sou uma pessoa completamente diferente de quem eu era na adolescência. As vivências me amadureceram.

Quando somos jovens, carregamos bagagem demais — opiniões e dores que outras pessoas nos impõem — e vamos arrastando isso como grilhões de ferro que nos freiam e enfraquecem.

Envelhecer, de certa forma, é se libertar.

Hoje, caminho pelas ruas sem me importar com olhares, ou a falta deles, como se eu transitasse por outra dimensão sobreposta à rua dos homens. Ali, presto atenção apenas ao que me é relevante, e deixo o burburinho externo de lado, para não interferir nos meus pensamentos.

Essa é uma habilidade que venho aprimorando ano após ano. Gostaria de ter sido assim aos 15. Capaz de me opor àqueles que não tinham meus melhores interesses no coração. De ser a voz que me defendia contra as que se uniam em coro, reforçando mentiras e crenças limitantes a meu respeito.

Hoje eu faço 36 anos. E hoje eu posso. Defendo meus limites como uma leoa. Não permito invasões, nem críticas disfarçadas de gentileza. Eu me protejo. Sou meu próprio leão de chácara.

Pensando bem, se não há nenhuma justificativa ou objetivo maior nessa vida, eu aceito esse: desabrochar em mim mesma, encontrar a minha luz.

36 anos atrás, eu vim para esse mundo. E um dia partirei. Até lá, continuo me tornando.