Acordos que ninguém assina: sobre o privilégio de ter as palavras
Faz algumas semanas que eu sou mentora de uma menina que está aprendendo Python. Ela tem 17 anos, mora no Maranhão, e nos conectamos através de um programa de mentorias do qual participo. Nos falamos uma vez por semana.
Inicialmente, tive uma baita dificuldade de criar um rapport com ela, ela se recusava a ligar a câmera, mal me respondia quando eu fazia perguntas sobre a matéria ou qualquer outro assunto. Parecia a mais completa falta de interesse.
O código dela era o que se espera de alguém que está começando: bagunçado, cheio de soluções que funcionam por acidente. Isso eu sei acolher, eu já fui aquilo, ouso dizer, ainda sou isso. O que me incomodava mesmo era todo o resto. O silêncio do outro lado, encarar o retângulo preto onde devia estar o rosto dela. As respostas de uma palavra quando eu tentava puxar assunto, as piadas e brincadeiras sem um riso sequer. As mensagens que chegavam sem pontuação, sem maiúscula, com palavras que eu precisava ler duas vezes para entender.
Eu somei tudo isso e cheguei a uma conclusão: ela não estava interessada. Que outra conclusão eu poderia tirar? Não tenho orgulho em admitir que ali eu sentia uma impaciência miúda subindo. A impaciência de alguém que poderia estar descansando, mas está abrindo mão do seu tempo pessoal para ajudar outra pessoa, de graça. A impaciência de quem está sendo obrigada a fazer um esforço que considera desnecessário.
Escrever isso é desconfortável. Eu não sou nenhuma Madre Teresa de Calcutá, eu tenho a minha versão mesquinha, eu também permito que interesses egoístas governem minhas ações de caridade.
Apesar do desconforto, não larguei de mão, movida, no começo, mais pelo ego do que por qualquer outra coisa. Medo de jogar a toalha de um projeto com o qual eu tinha me comprometido, onde iria parar a minha credibilidade profissional depois disso?
As semanas foram passando e não houve um momento de descoberta, uma conversa reveladora que me fez entender tudo de uma vez. As coisas foram se juntando aos poucos, um misto de observação e dedução. Percebi que ela morava com muita gente, porque sempre tinha alguém chamando ao fundo e ela sempre saía por um minuto e voltava. Percebi que a internet caía, e caía sempre. Percebi que ela entrava no Meet pelo celular, e demorei mais do que devia para entender por quê: o computador não dava conta de rodar o Meet e o código ao mesmo tempo. Aquele celular apoiado em algum canto era a solução que ela tinha encontrado para o problema de ter uma máquina só, e velha. E aí a câmera desligada para de ser mistério. Pelo celular, ligar a câmera não era mostrar o rosto. Era mostrar o quarto, a casa, as pessoas passando atrás. Era mostrar uma vida que ela não queria que eu visse.
Comecei a perceber também que eu estava cobrando dela coisas que, para mim, pareciam óbvias porque tinham sido ensinadas muito antes de eu saber que estavam sendo ensinadas. Como se pede ajuda sem se diminuir. Como se discorda de alguém mais velho. Como se admite que não entendeu uma explicação sem parecer incapaz. Quanto tempo é aceitável demorar para responder uma mensagem, e o que significa não responder. Todos aqueles acordos tácitos que a gente traça ao se comunicar com o mundo. Ninguém assina, ninguém explica, ninguém confessa que existem. E a gente aprende por osmose, se tiver a sorte de crescer no ambiente onde eles valem.
Eu aprendi por osmose. Ela está tendo que aprender por dedução, ao vivo, enquanto tenta entender o que é uma array. Ela não sabia se comunicar, e não saber é diferente de não querer. Cada coisa que eu tinha lido como falta de interesse era uma condição material. Eu olhei para uma lista de obstáculos e vi uma lista de defeitos. E não era sobre clareza, porque quando eu perguntava de novo, com calma, a resposta sempre vinha e sempre fazia sentido. Ela pensava bem, é uma garota muito inteligente. O que me incomodava era a forma. E a forma, eu fui entender depois, era só a distância entre o jeito dela falar e o jeito que eu aprendi a chamar de certo.
Eu sempre pensei privilégio como dinheiro, e por essa régua eu nunca me qualifiquei. Não vim de dinheiro. Mas eu estudei no Pedro II, escola federal, pública, gratuita, e uma das melhores do país. Passei a adolescência cercada de gente de todos os tipos e de todos os credos, o que na hora era só o meu cotidiano e que hoje eu entendo como formação, talvez a mais importante que eu recebi. Estudei inglês. Depois francês, japonês, chinês, alemão. Viajei o mundo. Morei fora. Tenho mais de uma formação. Sou leitora assídua desde criança, e sou porque em casa isso era estimulado, cultivado, tratado como coisa que importa. Sou letrada, palavra que parece técnica mas quer dizer que eu recebi, sem nunca ter pedido, a chave das portas que se abrem por escrito.
E nada disso passou pela minha conta bancária. Veio de uma escola que o Estado pagou, de uma casa onde ler era hábito, de anos de convivência com gente diferente de mim. Tudo aquilo foi entrando em mim como jeito de olhar, não como currículo. Cada uma dessas coisas me abriu uma porta, e a soma delas construiu uma coisa que eu passei a vida chamando de esforço próprio.
Eu conheço essa engrenagem. Já escrevi sobre ela aqui, de outro ângulo. Passei a vida adulta descobrindo que a voz que media o tamanho aceitável dos meus desejos não era minha, era uma régua que alguém instalou em mim cedo, com precisão cirúrgica, e que eu carreguei por décadas achando que era discernimento próprio. Achei que o trabalho de uma vida fosse tirar essa régua de dentro de mim. Não me ocorreu que eu também aplicava uma nas outras pessoas.
No começo do ano, li O pobre de direita, do Jessé Souza. O que fica do livro, para mim, não é a análise política, é uma coisa mais desconfortável: a desigualdade brasileira não se sustenta só por dinheiro. Ela se sustenta por humilhação. Por um sistema de gostos, sotaques, modos de falar e de se comportar que funciona como senha de entrada, e que a classe média confunde com mérito próprio porque nunca precisou perceber que recebeu de graça. Ninguém precisa dizer a ninguém que ele não pertence. A régua diz sozinha, todos os dias, em cada correção, em cada olhar de paciência forçada. Em cada mentora que suspira do outro lado da tela.
Depois cheguei ao Marcos Bagno, Preconceito Linguístico: o que é, como se faz, e aí perdi o resto do meu argumento.
Reparem na cena: a burguesinha sentiu um incômodo de classe e foi resolver do jeito mais classe média possível, lendo dois livros sobre ele.
O que eu estava chamando de comunicação ruim era, em boa parte, o meu ouvido. Eu estava tratando como defeito uma distância em relação ao repertório que eu havia aprendido a considerar neutro. E o que mais me pega é a assimetria. Ela entende a minha língua. Ela precisa aprender a minha língua, porque nunca lhe foi oferecida a opção de não aprender. Eu nunca precisei aprender a dela. Talvez privilégio seja isso, no fundo: não ter que se esforçar para ser compreendido.
Fui de humanas, e me disseram que humanas era o destino de quem tinha habilidades bonitas e economicamente inúteis. Virei engenheira de software aos trinta e tantos, vindo da hotelaria, e passei muito tempo dizendo que aquilo tinha sido coragem. Foi coragem, sim. Mas coragem em cima de uma base que já existia. Eu tinha inglês. Eu tinha leitura. Eu tinha o repertório para atravessar uma entrevista técnica em segunda língua e parecer alguém que pertencia àquela sala.
Ela está tentando atravessar a mesma porta sem nada disso, num computador que não roda duas coisas ao mesmo tempo.
Tem uma ironia que eu não consigo ignorar. Eu trabalho em inglês, num time onde a estrangeira sou eu. Nas reuniões, sou eu a que tem sotaque, a que às vezes repete a frase, a que percebe o outro esperando meio segundo a mais para ter certeza de que entendeu. Eu sei o que é ter o conteúdo esperando na fila enquanto julgam a forma. Eu conheço essa fila, só nunca tinha me perguntado quem é que eu deixo esperando nela.
Porque foi exatamente isso que eu fiz com uma menina de dezessete anos que só queria aprender a escrever uma função. Não é hipocrisia, é pior, muito pior. É comportamento automático, entranhado.
O que mudou de concreto foi pequeno e sem glamour nenhum. Parei de corrigir o que não era código. Comecei a perguntar de novo, sem o suspiro, quando não entendo. Nunca mais pedi para ela ligar a câmera. Quando o assunto é a linguagem técnica, os termos em inglês, o jeito de escrever uma mensagem de commit, eu ensino aquilo do mesmo jeito que ensinaria um laço de repetição: como ferramenta que ela vai precisar, e não como conserto de um defeito. Porque essa é a parte que eu não resolvi e não pretendo fingir que resolvi: a porta é injusta, e a porta existe. Ela vai ter que atravessar. Meu trabalho não é convencê-la de que a régua não está lá.
Mas tem uma última coisa, e é a que mais me incomoda. Deixei para o fim porque não sei o que fazer com ela. Eu fui capaz de entender tudo isso. Percebi o celular, deduzi a casa, li dois sociólogos, encontrei as palavras, capital cultural, régua, acordos tácitos. E escrevi este texto. Essa capacidade não é virtude minha, é o mesmo privilégio operando de novo, uma camada acima.
Foi a mesma escola federal que me deu o repertório para reconhecer uma estrutura quando vejo uma. Foi o mesmo hábito de leitura que me faz procurar num livro a explicação do que eu sinto. Foi ter tempo, cabeça e as contas pagas que me permitiu transformar um incômodo numa investigação, em vez de num veredito.
Ela vive a desigualdade. Eu recebi as ferramentas para nomeá-la. E são as mesmas ferramentas que me colocaram do lado que sai ganhando. Então eu escrevo um ensaio sobre a minha própria lucidez, e pareço sensível fazendo isso, porque tive o privilégio de transformar o que vivi em reflexão, quando para ela aquilo continua sendo apenas a vida.
É só a prova cabal de como o jogo funciona.
E é isso. Não tenho conclusão.