Carregar a lanterna no escuro: Sobre buscar verdade, cair, e escolher continuar

Eu vejo a verdade absoluta como um espelho. Um espelho que se partiu em um milhão de pedaços antes que pudéssemos enxergá-lo inteiro.

Quando mais jovem, era comum para mim segurar um desses cacos de vidro e tomá-lo como fonte exclusiva da verdade. Tudo era muito preto no branco — certo ou errado, bom ou mau. Mas com o tempo fui percebendo que a vida se constrói muito mais nos tons de cinza do que em absolutos.

Sempre fui curiosa, mas também cheia de vieses. E essa constatação me colocou num caminho de busca por respostas em campos diversos do conhecimento. Escolhi procurar esses pequenos cacos em lugares pouco óbvios e, às vezes, até desconfortáveis para a maioria. Estudo ocultismo, psicologia, espiritualidade, símbolos. Não por esoterismo, mas por sede de visão. E tenho me surpreendido com o tipo de sabedoria que venho encontrando.

Atualmente, muitos dos valores que regem a minha vida vêm do luciferianismo. Como quase todo mundo, eu também cresci com aquela imagem distorcida do que significa ser luciferiana — carregada do peso que o cristianismo impôs ao nome. Mas o que eu encontrei foi outra coisa.

É, eu sei. Só de ouvir o nome “Lúcifer” já sobe um arrepio, né? A aversão é comum, e faz sentido. A gente cresce ouvindo uma única versão dessa história, com rótulos prontos e medo embutido. Mas foi justamente quando eu comecei a questionar essas versões que encontrei algo profundamente diferente. Não estou falando aqui de luciferianismo teísta, nem de adoração. Falo da filosofia por trás do símbolo. Lúcifer, pra mim, é um arquétipo. Um símbolo de luz, de despertar, de questionamento. A própria etimologia do nome já aponta para isso: “o portador da luz”. E essa luz não é a que te deixa confortável. É a luz que revela. Que queima. Que te obriga a olhar pra dentro. É o mesmo princípio de Prometeu, na mitologia grega, que roubou o fogo dos deuses para entregar aos humanos e por isso foi punido. Ele não foi um vilão. Foi alguém que acreditou que o conhecimento, mesmo perigoso, deveria ser acessível. Ou de Vênus, a estrela da manhã, o corpo celeste que brilha forte antes do nascer do sol. Lúcifer também é esse símbolo: aquele que anuncia a luz antes dela chegar. O impulso de se mover na escuridão, mesmo sem garantias.

Esses símbolos me ensinaram sobre autonomia, responsabilidade e coragem de encarar a própria sombra. Me fizeram sair da postura passiva de quem espera ser salvo e entrar num caminho onde eu sou a responsável pelas minhas escolhas, pelas minhas quedas e pelo que faço com elas. É aqui que entra o conceito de auto responsabilidade radical.

Não se trata só de reconhecer que tenho parte nos meus resultados, mas de aceitar que tudo que está na minha vida, de alguma forma, é de minha responsabilidade, até aquilo que não é culpa minha. É desconfortável, muitas vezes até injusto aos olhos do ego, mas também é libertador. Assumir essa radicalidade é parar de terceirizar a própria história. É olhar pro que dói sem se esconder atrás de desculpas. É dizer: “fui eu” mesmo quando seria mais fácil culpar o outro, o sistema, o acaso.

Em teoria, tudo lindo. Discurso bonito, né?

Mas, como todo mundo sabe, existe uma diferença enorme entre entender um conceito e viver ele na pele, especialmente quando a vida desanda. Descobri que é difícil, e muitas vezes doloroso, manter a postura da autorresponsabilidade quando a vida te dá rasteira. Quando são as suas próprias escolhas que te colocam em becos sem saída. Quando tudo o que você quer é ser acolhida, compreendida, aliviada da culpa por um instante que seja.

Nesses momentos, a gente culpa a vida, os outros, o acaso… até os nossos eus do passado — que já nem existem mais e não estão aqui pra se defender. Não é fácil ser injustiçada e ainda assim encontrar forças pra seguir em pé. Não é fácil ter um cérebro que toma decisões com base em traumas, impulsos, gatilhos e ainda assim esperar que ele sempre aja no seu melhor interesse.

Mas, apesar disso tudo, venho percebendo uma coisa: me colocar no papel de vítima é uma prisão. Uma cela confortável, mas que paralisa. A verdade é que a gente não foi feita pra inércia. O movimento é a própria essência da vida. Estar em movimento, mesmo que cambaleando, mesmo que sem saber exatamente pra onde… é o que nos mantém vivas. E foi justamente aí que eu entendi: não se trata de não sentir dor, de não errar ou de não cair. Isso tudo faz parte. A questão é o que você faz depois. O que você escolhe fazer com o que restou de você. A responsabilidade de continuar em movimento, mesmo machucada, mesmo exausta, é uma escolha. Uma escolha difícil, desconfortável, muitas vezes solitária mas profundamente libertadora. Porque é no movimento, mesmo lento, mesmo hesitante, que a vida volta a circular.

Continuar em movimento, nesses momentos, não é sobre força, é sobre decisão.

É um compromisso silencioso com a vida: de que, apesar da dor, da dúvida, do medo, eu vou continuar. Nem sempre bonita, nem sempre forte, mas inteira na escolha de seguir. Porque cada passo consciente, mesmo trêmulo, me aproxima de mais um pedaço daquele espelho estilhaçado do qual falei no início. E talvez nunca dê pra montar ele inteiro. Mas a cada caco que eu encontro, eu passo a enxergar um pouco mais de mim e isso, pra mim, é viver à luz do símbolo luciferiano: carregar a lanterna mesmo quando o caminho é escuro.

Não pra salvar ninguém. Mas pra iluminar, aos poucos, a própria travessia.