Quando a árvore era alguém

Por anos trabalhei em cruzeiros marítimos - doze horas de turno, às vezes mais. Nos raros momentos em que o corpo ainda aguentava e o tempo abria, eu ficava na bancada do bar de tripulantes olhando o mar. Era sempre tarde da noite, uma escuridão lá fora.

Lembro do silêncio específico daquele momento. Não o silêncio de ausência, mas o contrário: uma presença enorme e sem nome. O mar sob a lua, a vastidão que não tem borda, a consciência aguda da própria pequenez. Havia um vazio ali - e ao mesmo tempo uma sensação de que tudo ao redor estava vivo de um modo que eu nunca soube articular.

Só fui encontrar palavras para isso há pouco tempo, num livro de uma botânica americana chamada Robin Wall Kimmerer, membro da nação Potawatomi. Ela descreve um momento semelhante como o encontro com “algo que não sou, para o qual não há expressão, o mudo existir dos outros, que faz com que nunca estejamos sós.”

Quando li aquilo, a primeira coisa foi reconhecimento, simples assim. São as primeiras linhas do capítulo “Gramática da Animação” - e foi ao avançar nele que a leitura virou reflexão: Kimmerer não estava apenas descrevendo uma experiência. Estava apontando para o buraco que a língua deixa onde essa presença deveria caber. Aquela sensação do mar - a de nunca estar sozinha rodeada de coisas - não tem nome em inglês nem em português. E isso, percebi, não é acidente.


A gramática não é inocente

Em seu livro A Maravilhosa Trama das Coisas, Kimmerer dedica um capítulo inteiro a uma pergunta que parece pequena: por que em inglês chamamos uma árvore de it? It é o pronome para coisas, para objetos, para o que não tem subjetividade, presença ou agência. Quando dizemos it para uma árvore, estamos fazendo uma afirmação filosófica sobre ela: que não é alguém. Que é algo. Em português a estrutura é diferente, mas o efeito é o mesmo - perguntamos o que é aquilo? e não quem é aquele? quando vemos uma árvore ou uma pedra. O pronome quem, em nossa língua, está reservado para humanos. O que é para o resto.

Um professor de línguas disse a Kimmerer que “gramática é apenas o modo como mapeamos relações.”1 A definição parece técnica, mas não é: se gramática é um mapa, ela decide o que está no território - o que existe, o que conta, quem merece ser considerado. E no mapa que o português oferece, o mundo vivo foi classificado como coisa. Kimmerer é direta sobre o que isso implica: “quando dizemos que uma árvore é um que e não um quem, construímos uma barreira entre nós, absolvendo-nos da responsabilidade moral e abrindo a porta para a exploração.” Ninguém precisa se justificar para destruir uma coisa.


O que as línguas animadas sabem

Em Potawatomi, a língua de Kimmerer, existe o verbo yawe - ser animado, ter o sopro de vida. Rochas são animadas. Montanhas são animadas. A água, o fogo, os lugares, os dias - todos existem como verbos, como ações, como presenças em curso. A língua não distingue o mundo vivo do mundo familiar: as mesmas palavras que descrevem a floresta descrevem a família. Não é uma escolha poética. É uma arquitetura diferente de mundo.

No Brasil, os Guarani chegaram a uma formulação que vai mais fundo. O conceito de nhe’ẽ - que pesquisadores traduzem como “alma-palavra” - não tem equivalente em português porque é, ao mesmo tempo, palavra, alma, espírito, ser, vida, nome e origem. Para os Guarani, a fala e a porção divina da alma são sinônimas, um conceito indivisível: a alma não está no corpo, o corpo é portador da alma, e a alma é uma palavra. Onde Kimmerer descreve o yawe como “ter o sopro da vida dentro de si”, os Guarani diriam que esse sopro é a fala - a língua não mapeia um mundo animado, ela é a própria animação.

Kimmerer faz uma pergunta que não sai da cabeça: “Por qual confluência linguística o Yahweh do Velho Testamento e o yawe do Novo Mundo ambos saem da boca do reverente?” Em hebraico, o nome de Deus - YHWH - é impronunciável como substantivo. Só pode ser respirado. Yhhhh… Whhhhh. Será que a boca sabe coisas que a gramática esqueceu?


O rio, esse velho conhecido

Ailton Krenak, filósofo e líder indígena do povo Krenak, do Vale do Rio Doce, formula a mesma crítica a partir do Brasil: “Fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, passando a pensar que ele é uma coisa e nós, outra.” O Rio Doce, onde ele nasceu e cresceu, foi destruído em 2015 pelo colapso da barragem de Fundão, da mineradora Samarco - quarenta e três bilhões de litros de rejeitos. O rio que era avô virou lama. A gramática que transforma rios em recursos não é abstrata: ela tem número de processo, tem acionistas, tem decisão de diretoria.

Mais ao norte, nas terras Yanomami, o xamã Davi Kopenawa descreve a floresta com uma precisão que a biologia ainda não alcançou: “A floresta é inteligente, ela tem um pensamento igual ao nosso.” Os xapiri - espíritos que habitam cada ser - são as imagens imortais dos ancestrais animais; cada árvore, cada pássaro, cada peixe carrega a presença de quem veio antes. Kopenawa alerta há décadas que quando o último xamã morrer e não puder mais sustentar o céu, ele cairá sobre todos - não sobre os Yanomami, sobre todos. O que Kimmerer chama de “gramática da animação”, Krenak e Kopenawa vivem como urgência política. A língua que transforma a floresta em o que ao invés de quem não é apenas imprecisa. É a língua que prepara o garimpo.


O que as crianças sabem antes de serem ensinadas

Minha mãe me achava uma chata de galocha quando eu era criança, uns oito, nove anos. Eu parava para pedir desculpa para cada planta que esbarrava no caminho, e ela me puxava pelo braço para andar mais rápido. Uma vez, numa tarde de praia com meus primos, enchi um copo de tatuís e os trouxe para casa - convicta de que iam adorar morar em cima da geladeira. Chorei muito quando morreram. Fui aprendendo, aos poucos, a ter vergonha disso.

Kimmerer observa que essa animação não é peculiaridade de criança sensível: é uma percepção que a maioria das crianças tem e que depois vai ser sistematicamente desfeita. Ensinamos que a árvore é o que e não quem, que a pedra não sente, que conferir identidade e propósito a plantas e bichos é um erro a superar.

Krenak chama esse processo pelo nome certo: reeducação. E toda reeducação tem um objetivo - produzir um tipo específico de sujeito, com um tipo específico de relação com o mundo. O sujeito que emerge desse aprendizado é alguém que pode extrair, consumir e descartar sem sentir que está fazendo algo errado, porque o que está extraindo é coisa. Para a maioria dos povos amazônicos, segundo o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, a humanidade não é uma exceção no cosmos - é a condição original compartilhada por todos os seres. Os animais não perderam a humanidade para se tornarem bichos: assumiram outros corpos, outros pontos de vista. Cada ser vê o mundo como humano, a partir de si mesmo. A criança que conversa com a pedra não está errada. Está, talvez, mais próxima de uma percepção que depois vai ser treinada para abandonar.


A pergunta que a língua não faz

Kimmerer termina o capítulo com uma abertura: “Imagine o acesso que teríamos a diferentes perspectivas, tudo que nos seria possível ver através de outros olhos, toda a sabedoria que nos rodeia. Não temos de decifrar tudo sozinhos, há outras inteligências no mundo além da nossa, há professores ao nosso redor.”

Para isso, é preciso primeiro acreditar que elas existem. E para acreditar que existem, é preciso uma língua que não as apague.

Penso nisso com frequência - e com uma certa desconfiança de mim mesma. Num mundo onde o conhecimento válido é apenas o científico, falar que a floresta pensa ou que o rio é avô soa, no mínimo, como new age mal explicada. Sei disso. Mas a alternativa que temos praticado não está funcionando especialmente bem. Talvez o que falte não seja mais conhecimento, mas outra forma de olhar - uma em que o rio e quem bebe dele sejam parte da mesma frase.


Robin Wall Kimmerer, A Maravilhosa Trama das Coisas (Braiding Sweetgrass, 2013). Ailton Krenak, Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019). Davi Kopenawa e Bruce Albert, A Queda do Céu (2015). Eduardo Viveiros de Castro, Os Pronomes Cosmológicos e o Perspectivismo Ameríndio (1996).

Footnotes

  1. A ideia de que a língua molda a percepção do mundo tem nome na linguística: hipótese Sapir-Whorf, formulada por Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf nas décadas de 1930-40. A versão mais aceita hoje — a fraca — sustenta que a língua influencia (não determina) como pensamos. É exatamente o que Kimmerer está argumentando com a gramática da animação.