Quando tudo começa a dar certo…eu me saboto: buscando o entendimento através de duas lentes da psicologia
Sexta-feira, dia de pesagem. Estava me sentindo aflita, como de costume. Senti meu cortisol subir — uma reação automática ao estresse — enquanto eu me despia para me pesar. Grata surpresa! Minha determinação estava dando resultados: os ponteiros da balança caíram 1,1 quilo. Nada mal para quem havia colocado como meta perder 0,5 quilo por semana. Não só bati, como dobrei a meta. Agora é só seguir em frente, certo? Certo?!
Logo após essa pequena vitória, segui com as minhas tarefas da manhã: higiene pessoal, leitura, reuniões e o café da manhã — minha refeição favorita. Mas hoje, estranhamente, eu não estava com vontade de comer o habitual ovo com queijo, algo que eu adoro. Meu corpo desejava algo diferente… um arroz, algo meio sem sentido, quase sem sabor, mas que representava uma quebra com o que eu vinha fazendo.
Ignorei aqueles sentimentos e empurrei minha refeição goela abaixo. Eu não estava com fome, mas minha mente começou a ser invadida por imagens de todas aquelas comidas “proibidas”, que não fazem parte da minha dieta.
Às 15h, convenci meu marido a pedir um bolo para tomarmos com café. Comi quatro pedaços — não um, como eu tinha planejado. Foi aí que me dei conta: algo estava acontecendo. Ao refletir sobre meus sentimentos e atitudes naquele dia, uma pergunta me atravessou como um raio:
Por que eu sempre saboto meu progresso quando as coisas estão indo bem?
Minha História com a Autossabotagem
Minha história não é muito diferente da de tantas outras pessoas. Fui uma criança, depois uma adolescente com excesso de peso, travando uma batalha quase constante — muitas vezes com as armas erradas — em busca de amor próprio e de um corpo saudável.
Quantas vezes já ouvimos essa narrativa? Mesmo olhando de forma particular, a minha trajetória parece um replay, como se eu estivesse presa em um looping eterno, condenada a cometer os mesmos erros. Sempre nadando, nadando… e morrendo na praia.
De uns tempos para cá, algumas coisas começaram a mudar. Conheci os conceitos de resiliência e paciência e deixei de buscar soluções milagrosas para um problema tão persistente. Empiricamente, com o tempo, provei para mim mesma que tudo que vem rápido, vai embora na mesma velocidade.
Mais importante: entendi que a obesidade não era o problema em si, mas sim um sintoma. Um reflexo de questões emocionais e processos psicológicos profundos, silenciosos, muitas vezes reforçados sem que eu sequer percebesse.
Desde então, venho enfrentando isso de frente: fiz tratamento psiquiátrico e psicológico, busquei respostas na espiritualidade, li, escrevi, chorei, recomecei. Investi em todas as frentes possíveis. E, por mais que a jornada esteja longe de acabar, hoje sinto que estou muito mais próxima de entender — e transformar — o que realmente me leva a me sabotar.
Foi só recentemente que encontrei duas explicações que realmente fizeram sentido. Neste artigo, quero compartilhar esse processo de descoberta — analisando esse comportamento sob duas lentes da psicologia: o Upper Limit Problem, de Gay Hendricks, e a Resistência, como definida por Steven Pressfield.
O Upper Limit Problem: Quando o Sucesso Ameaça Nossa Identidade
O Upper Limit Problem (ULP) é um conceito introduzido pelo psicólogo americano Gay Hendricks, que descreve uma espécie de barreira subconsciente que nós mesmos criamos para limitar nosso sucesso, felicidade e crescimento pessoal.
É como se tivéssemos um limite interno — um “termômetro emocional” — que define o quanto de bem-estar nos permitimos sentir. Quando ultrapassamos esse limite, entramos em estado de alerta. E, sem perceber, nos sabotamos para voltar à zona de conforto emocional.
Esse conceito pode soar estranho à primeira vista. Afinal, quem conscientemente rejeitaria o próprio sucesso? Mas quando comecei a observar meus comportamentos com mais atenção, percebi que esses padrões realmente se repetiam na minha vida.
No meu caso, a autossabotagem costuma aparecer justamente depois de conquistas. Um número menor na balança, um dia em que me sinto bem comigo mesma, uma sequência de hábitos saudáveis. Tudo vai bem… até que algo dentro de mim aciona um alerta invisível. E então, sem entender direito por quê, eu quebro o ritmo, abandono hábitos ou busco consolo em comportamentos antigos.
Comecei a entender que o medo do sucesso é real. E que, muitas vezes, ele nasce de um conflito de identidade.
Se eu parar de me ver como uma pessoa que luta contra o peso desde sempre… quem eu sou a partir desse ponto?
Essa incoerência entre o que estou tentando conquistar e quem acredito que sou gera uma espécie de atrito interno. É como se o cérebro dissesse:
“Perdeu peso? Isso aqui é arriscado! Volte pro seu lugar seguro.”
E o “lugar seguro” é justamente o antigo padrão.
Essa identidade, esse “termostato emocional”, muitas vezes é construído na infância e adolescência, influenciado por dinâmicas familiares, mensagens sobre autoestima, amor, segurança e até traumas. A partir disso, você acaba sendo, inconscientemente, condicionada a se sentir de uma determinada forma — como se houvesse uma “zona emocional aceitável” da qual você não pode escapar.
Como diz Gay Hendricks em The Big Leap:
“Cada um de nós tem um termostato interno que determina o quanto de sucesso, amor e criatividade nos permitimos experimentar.”
A Resistência de Steven Pressfield
Há alguns anos, conheci o conceito de Resistência, apresentado pelo autor americano Steven Pressfield, através de uma belíssima aula da professora de filosofia Lúcia Helena Galvão.
A Resistência foi descrita como uma força invisível que se manifesta como oposição toda vez que estamos em processo de crescimento, criação, ou em busca de nos alinharmos com o nosso eu verdadeiro e de cumprir o nosso propósito de vida.
Pressfield define a Resistência como uma espécie de energia negativa, um sabotador interno que surge sempre que tentamos dar um passo em direção à evolução. Ela aparece disfarçada de procrastinação, dúvida, cansaço repentino, distrações, impulsos emocionais, compulsões… Tudo aquilo que nos tira do caminho e nos afasta da direção que mais importa.
“A Resistência dirá qualquer coisa para nos impedir de fazer nosso trabalho. Mentirá. Vai nos enganar. Será racional. Nos convencerá de que devemos esperar até amanhã. A Resistência é sempre mentirosa.” — Steven Pressfield
No meu caso, foi surpreendente perceber que essa força não é exclusiva minha. Todos nós, de alguma forma, enfrentamos esse mesmo obstáculo silencioso, essa barreira sutil que tenta nos manter no conhecido — mesmo que o conhecido nos faça sofrer.
De acordo com minhas crenças espirituais, compreendi que muito disso está ligado à frequência energética em que estamos sintonizados. E foi a partir dessa percepção que nasceu uma pergunta que até hoje me acompanha:
Se todos passamos pelos mesmos processos, então o que faz algumas pessoas vencerem… e outras não? O que nos permite sair da inércia, atravessar a autossabotagem e sustentar a mudança?
Talvez a resposta esteja justamente em reconhecer que essa força existe — que ela é parte da jornada, e não um sinal de fracasso.
Dois nomes para a mesma força? O paralelo entre o Upper Limit Problem e a Resistência
Depois de conhecer esses dois conceitos — o Upper Limit Problem, de Gay Hendricks, e a Resistência, de Steven Pressfield — comecei a perceber que, embora tenham origens diferentes, ambos se encontram em um mesmo lugar: no ponto de ruptura entre quem eu sou hoje e quem estou tentando me tornar.
Ambos falam de forças invisíveis e internas que atuam como freios quando estamos crescendo, mudando ou nos aproximando da nossa melhor versão.
O ULP se manifesta por meio de crenças enraizadas, construídas ao longo da vida e profundamente ligadas à nossa identidade. Já a Resistência aparece como uma força quase externa, simbólica, coletiva — uma energia que parece pairar no ar sempre que nos aproximamos do que realmente importa. Uma egrégora, talvez?
Ao olhar com atenção, vejo que as duas compartilham um papel em comum: proteger. O ULP protege nossa identidade atual, mesmo que ela nos faça sofrer. A Resistência tenta nos proteger da vulnerabilidade, da exposição, do fracasso.
São, de certa forma, mecanismos de defesa sofisticados, que nos afastam da dor — mas também do crescimento.
Ambos se ativam no momento em que nos colocamos em movimento. Ambos se alimentam do medo. E ambos só perdem força quando os reconhecemos pelo nome e decidimos, ainda assim, seguir em frente.
O que isso revela sobre mim
Ao olhar para minhas recaídas sob essas duas lentes, passei a enxergar que elas não são falhas, mas sim pontos de atrito com minha própria transformação.
Comecei a perceber que a autossabotagem é, muitas vezes, o preço emocional de romper com a identidade antiga. É o desconforto de habitar um novo espaço interno, onde ainda não me sinto completamente segura — mas onde, no fundo, eu sei que preciso estar.
ULP e Resistência não são inimigos. Eles são sinais. Sinais de que estou me aproximando de algo importante. De que estou mexendo em estruturas antigas. De que estou crescendo.
Eu não estou aqui hoje para escrever um passo a passo. Sabe aquele clichê — “Não me siga, também estou perdida”? Ainda estou aprendendo como navegar por essas novas descobertas.
Mas também sei de uma coisa: o que não pode ser visto, não pode ser curado. E só o fato de estar enxergando essas forças já me deixa mais próxima de superar aquelas batalhas antigas.
O que eu posso te dizer é que tem valido a pena todo o processo de autoconhecimento e auto-observação. Identificar e regular minhas respostas emocionais. Reconhecer e, aos poucos, reescrever as partes da minha identidade que já não me servem mais.
Qualquer dia eu chego lá. E espero, de coração, que você também chegue.
E você? Já se sentiu com medo de se transformar na versão de si mesmo que sempre quis ser?